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Carlos A MessaPsicólogo Carlos Messa é autor do blog Filhos ( http://psic.com.br/blog/), psicólogo e diretor da organização de interesse público - Ação Ciência e Saúde Social. no Desabafo, ele escreve artigos e esclarece dúvidas sobre Comportamento e Educação
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A Violência Invisível13/10/08
Eu, você e eles, todos nós (ok, pode haver exceções) praticamos violências graves contra nossos filhos. São invisíveis e por isso são como aqueles crimes perfeitos que Hollywood vez ou outra nos apresenta. O Estatuto da Criança e do Adolescente não é capaz de nos incriminar. Saímos ilesos... ou quase isso já que sempre há um preço a ser pago. “Adultos são de Capricórnio e crianças são de Libra”, isto é, falam idiomas diferentes e é essa diferença que gera a violência. O bebê tende a atrair o adulto e tirá-lo da sua freqüente objetividade, ao menos por alguns minutos. Esse poder pode fazer com que um grande número de bebês não seja vítima da violência invisível. “Um grande número”, no entanto, quer dizer que há também muitos bebês que a sofrem. Um bebê vai aos poucos transmutando suas sensações em percepções e emoções e depois estas vão estabelecendo caminhos no emaranhado de neurônios, desenvolvendo a cognição (raciocínio lógico, inteligência). Dessa forma o bebê começa a falar – grava sons específicos e os liga a determinados significados. Nós, adultos, nos encantamos com seu progresso e mesmo nos maravilhamos quando a criança surge com perguntas ou afirmações inesperadas. Em algum momento desse desenvolvimento nós abandonamos a conexão emocional que tínhamos com ela. Não é repentino, apesar de ser possível que seja assim, mas tende a ser gradual. O mundo nos chama; o “dever” nos chama; nossos desejos nos chamam; a agenda e o telefone nos chamam. Nesse momento o mais comum é que a criança já se comunique bem conosco e, por isso, ela nos parece “inteira”, capaz, inteligente. Nos habituamos a tratá-la como igual a nós e, pior, não sabemos que ela está na sua segunda gestação, isto é, que ela está no seu segundo estágio de desenvolvimento, agora fora do útero, e que este só se completa aos vinte anos de idade. Sem aquele intenso apelo emocional através do qual um bebê nos fisga, esquecemos do nosso papel de guias da segunda gestação e respondemos “de igual para igual” - essa é a grande violência, de efeitos severos, e totalmente invisível. Quando ela começa a ocorrer? Depende da disponibilidade emocional do cuidador. É possível sua ocorrência desde a gestação, mas não é tão comum nessa fase. A maior parte dos casos se inicia quando a criança já apresenta algum processamento lógico, como a fala, por exemplo. Quando a criança está aprendendo a falar o cuidador pode ter atitudes de ruptura ao, por exemplo, ignorar a criança quando ela fala de forma errada uma palavra cuja pronúncia correta já foi ensinada e até mesmo ela já foi capaz de pronunciar corretamente. O cuidador se irrita ou pode não se irritar mas decidir, racionalmente, forçar a criança a falar “corretamente”, e a ignora para que ela emita a palavra corretamente. A criança não está pronta para responder a esse processo de aprendizagem. A criança praticamente ainda apenas “sente” e, no exemplo acima, o que ela sente é ter sido ignorada, gerando o sentimento de abandono ou rejeição. É uma violência invisível, silenciosa e por um bom período imperceptível. Um segundo exemplo: Escolinha – Um grande número de escolinhas descobriu a eficácia de dizer para a criança de dois ou três anos, que ela vai ficar na escola para a mãe ou pai ir trabalhar. É uma “chantagem” que funciona! A maioria das crianças “se comporta” quando são assim chantageadas. Até é possível usar esse argumento sem agredir emocionalmente a criança porém é necessário utilizar as palavras com muito cuidado. Podemos dizer que a criança ficará na escola, aprendendo e brincando com amigos e a mãe/pai irá trabalhar E logo a mãe/pai virá buscá-la. É uma violência dizer para a criança que ela ficará na escolinha PARA que a mãe/pai POSSA ir trabalhar. Dessa forma estamos permitindo que surja na criança o sentimento de que ela é um fardo ou um estorvo (veja o “post” Meu Filho, Meu Estorvo) e ela se esforçará para não ser esse incômodo, porém o sentimento de pertinens – fazer parte, estará fragilizado. Muitas e muitas violências invisíveis são cometidas também ao desejarmos que a criança nos obedeça. Antes surrávamos as crianças desobedientes e hoje... também. Quando a criança têm oito ou nove anos podemos ajudá-la na tarefa escolar e, para mostrar e ampliar algum conceito podemos pedir que ela vá buscar o livro da enciclopédia que tenha os verbetos da letra “H”. Ela volta dizendo que não tem a letra “H”. - “Como não tem? - Você está com preguiça? - Eu estou tentando te ajudar mas se você ficar...” Novamente fragilizamos o sentimento de fazer parte porque a criança nos parece lógica, inteligente porém não nos damos conta do quanto ainda ela precisa aprender nessa segunda gestação; não nos damos conta que ela vê o livro da letra “A”, do livro da “B”, e que letras que têm menos verbetes estão agrupadas em um único livro, por exemplo “G, H, I e J”, sendo que a enciclopédia só indica o lógico: “G-J”. Veja no vídeo uma cena do filme “Emile”, mostrando a violência contra uma menina um pouco mais velha. Contra adolescentes a violência “come” solta porque, afinal, adolescentes são “difíceis”. O problema muitas vezes nem é o conteúdo e sim as entrelinhas: o respeito, o vínculo, o sentimento de ser parte de um conjunto fundamental que oferece segurança. O resultado da fragilização desse vínculo não pode ser descrito na totalidade porque há infinitas decorrências. As mais comuns são: - Ansiedade (por contato/vínculo) e as decorrências: dificuldade de contato com amigos, impulsividade, intempestividade, dificuldade de atenção (concentração ou difusão); automatismo ou ansiedade na ingestão de alimentos > obesidade; dificuldade/desinteresse na ingestão de alimentos > magreza exagerada.
Finalmente eu, você, nós todos cometemos a agressão final que é definir que ela, a criança, tem um problema e que precisa ser tratada. |
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