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Carlos A Messa
Psicólogo
Carlos Messa é autor do blog Filhos ( http://psic.com.br/blog/), psicólogo e diretor da organização de interesse público - Ação Ciência e Saúde Social. no Desabafo, ele escreve artigos e esclarece dúvidas sobre Comportamento e Educação
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O Sono no Espelho

22/07/08
Assuntos Abordados neste desabafo: sono

Cada bebê, mesmo antes de nascer, é único. Não só o cabelo, as feições, o choro... e o sono. Cada bebê é único assim como nós, adultos, somos únicos!


Apesar de sermos únicos, a maioria de nós dorme de sete a oito horas por noite. Naturalmente há os que dormem cinco horas e aqueles que dormem quase dez; há os que dormem durante o dia, porém somos animais (racionais sim, mas animais) e nesse aspecto somos quase iguais, precisando de cerca de oito horas de sono a cada ciclo do giro da terra, que também é razoavelmente regular, acontecendo em cerca de vinte e quatro horas. O dia não tem doze horas exatas pois a luz e as trevas têm variações durante o ano.


Para o sono humano, assim como para outras funções animais, há uma regra geral que é comum à grande maioria dos indivíduos, há alguma variação de indivíduo para indivíduo, e há exceções, cuja causa primeira são disfunções variadas, que ocorrem em um pequeno percentual da população (menos de 1%). Depois há o frio, fraldas molhadas, dores, pontos facilmente verificáveis pelo “cuidador”.


Por que então encontramos tantos bebês que aparentemente têm dificuldades relativas ao sono? Somos pertinentes a um contexto – nossos pais, amigos, trabalho, filhos. Um bebê é extremamente pertinente à mãe, inclusive fisicamente durante a gestação. Em função disso o bebê espelha o contexto ao qual é pertinente e por isso, na maioria dos casos de disfunções do sono podemos encontrar:




1 – O bebê não incorporou nenhuma regularidade durante a gestação. A vida da mãe não tem um ritmo definido, há grande variação na hora de dormir e acordar, de tomar as refeições, assim como nas quantidades (tempo de sono e irregularidade nas refeições). O ritmo da mãe é uma das primeiras informações do processamento lógico do bebê. A rotina da mãe é um dos primeiros registros da memória do bebê e, quando é incorporado, é capaz de gerar os primeiros sentimentos de “certeza” e segurança.


A rotina cria sinapses e esse armazenamento “pré-cognitivo” as mães propiciavam aos bebês, décadas atrás, sem terem conhecimento da sua importância. Algumas gestantes “conversam” com seu bebê praticamente na mesma hora do dia.


O bebê que incorporou ritmo e regularidade, deixa de se desesperar ao surgir a fome, bem cedo, choramingando apenas para “chamar” a mãe.


A vida nas grandes cidades impôs uma nova ordem e em muitos casos essa aprendizagem não acontece. A criança que não vivencia o ritmo não tem a oportunidade de “descobrir” certezas temporais e, não tendo a “segurança” da rotina, continua a se desesperar ao primeiro sinal de fome, assim como fica ansiosa ou mesmo não suporta a ausência da mãe, chorando para atraí-la, o que ela interpreta como fome. Acalma-se com a presença da mãe e o seio, mama um pouquinho e logo adormece, acordando uma hora depois, querendo mais! Tendem a dormir por exaustão.




2 – O recém-nascido tem um ciclo de sono-vigília diferente dos adultos, acordando para se alimentar a cada duas ou três horas, indo aos poucos se vinculando ao ciclo de 24 horas (noite e dia), o que significa mais uma etapa de independência vencida. Isso implica em que as mães extrapolem seu ciclo de 24 horas, o que não é nada fácil. Quando a mãe está preparada para o ciclo do bebê e acorda, mesmo cansada, e alimenta o bebê, ambos voltam a dormir em seguida. Esse ciclo se estende pelas 24 horas do dia o que implica em que essa mãe dormirá algumas horas mesmo enquanto há luz, compensando as horas não dormidas à noite. Há variações, mas essas “exceções à regra” não geram nenhum problema porque a rotina se restabelece.


A mãe irregular, mesmo sem querer tende a não se submeter ao ritmo alimentação-sono do bebê, por precisar sair, fazer algo, dormir, etc. Desenvolvendo, agora diretamente, a arritmia no bebê. A arritmia é refletida pelo bebê, de volta para a mãe e esta tende a ver essa arritmia como sendo dele.


Quando isso acaba?


O bebê acabará mais cedo ou mais tarde assimilando o ritmo “luz e trevas” e provavelmente os pais se darão por contentes porém é fácil observar que uma regularidade não foi incorporada. A criança mesmo aos seis ou dez anos espelhara a irregularidade da vida dos pais, indo deitar-se um dia às nove horas e outro às onze ou depois da meia-noite. Acordará da mesma forma em horários irregulares o que fará com que as refeições serão também em horários diferentes. Para os maiores, a única regularidade será o horário escolar e, este será um desafio diário ou uma barreira , se não intransponível, ao menos odiosa.


Como a irregularidade é uma“rotina”, a regularidade será percebida como uma tortura e a excitação só acontece quando a dose do inesperado é maior, num crescente perigoso. A “disciplina” não será o ponto forte dessa criança.


Dessa forma problemas do sono podem indicar um problema do bebê, em um pequeno percentual, ou será a indicação da não aprendizagem do ritmo, na maioria dos casos, que precisa ser corrigido para evitar que haja reflexos ampliados na vida posterior (adulta inclusive) do indivíduo.


Adolescentes resistem muito à aprendizagem da regularidade, meninos de dez anos resistem um pouco, bebês aprendem e rapidamente. Crie uma rotina com vários pontos que se repetem e que sejam bem identificáveis. Separe bem o dia da noite, acendendo apenas uma luz suave nas mamadas noturnas. Durante o dia, coloque uma música suave, preferencialmente “clássica” (bem mais regular), antes de cada mamada. Crie dois ou 3 momentos fixos de conversa ou brincadeira. Dê banho sempre no mesmo horário. Se costuma receber ou fazer visitas, procure restringir a um horário definido. Permita exceções, por exemplo, nos finais de semana, porém apenas como exceções.


Em até três semanas com atividades temporalmente bem definidas, um bebê de quatro meses que incorpora a regularidade deixará de apresentar problemas para dormir e, aos 10 anos, não terá problemas com disciplina (ao menos proveniente desse fator).

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